A perícia médica é a etapa mais decisiva do pedido de auxílio-doença — e também a que mais gera dúvidas. Muitos segurados chegam ao consultório do perito sem saber exatamente o que esperar, o que levar ou como descrever sua situação. O resultado, em muitos casos, é um indeferimento que poderia ter sido evitado com melhor preparação.
Este artigo explica como funciona a perícia do INSS, o que o perito avalia e o que você deve levar no dia. Se o resultado já saiu negativo, veja: Auxílio-doença negado: quais são os próximos passos?
O que é a perícia médica do INSS?
A perícia médica é uma avaliação realizada por um médico perito vinculado ao INSS para verificar se o segurado está temporária ou permanentemente incapaz de exercer sua atividade profissional habitual.
Ela é obrigatória para a concessão de:
- Auxílio por incapacidade temporária (antigo auxílio-doença) — veja o serviço de benefícios por incapacidade
- Aposentadoria por incapacidade permanente (antiga aposentadoria por invalidez)
- Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS), quando há componente de incapacidade — veja o serviço de BPC/LOAS
A perícia não avalia apenas se a pessoa está doente. Ela avalia se a doença impede o exercício do trabalho habitual — e essa distinção é fundamental.
Como funciona na prática?
Agendamento
O segurado agenda a perícia pelo aplicativo Meu INSS ou pela central telefônica 135. O agendamento gera uma data, horário e local de atendimento — geralmente uma Agência da Previdência Social (APS).
É importante chegar com antecedência e levar documento de identidade com foto. Em caso de impossibilidade de locomoção, é possível solicitar perícia domiciliar ou hospitalar.
A consulta com o perito
A consulta dura, em média, entre 10 e 20 minutos. O perito:
- Analisa os documentos médicos apresentados
- Faz perguntas sobre a doença, o tratamento e as limitações no dia a dia
- Realiza um exame físico sumário, quando necessário
- Registra suas conclusões no sistema do INSS
O perito não é o médico do segurado. Ele não tem acesso ao histórico clínico completo — a não ser pelo que o próprio segurado apresenta. Por isso, a documentação que você leva é o principal insumo da avaliação.
A decisão
Após a perícia, o resultado fica disponível no Meu INSS em até alguns dias úteis. O perito pode:
- Conceder o benefício por um período determinado, com data de retorno para nova perícia
- Conceder aposentadoria por incapacidade permanente, se a incapacidade for total e irreversível
- Indeferir o pedido, se entender que não há incapacidade para o trabalho habitual
O que o perito avalia?
O perito não avalia a doença em si, mas o grau de incapacidade funcional que ela provoca. Isso significa que duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem ter resultados diferentes na perícia, dependendo da profissão, da gravidade do quadro e da documentação apresentada.
Os principais critérios são:
- Diagnóstico e gravidade: qual é a doença e em que estágio se encontra
- Limitações funcionais: o que a pessoa não consegue mais fazer em razão da condição
- Relação com o trabalho habitual: se as limitações impedem o exercício da função que o segurado desempenhava
- Tratamento em curso: se há acompanhamento médico e qual a perspectiva de recuperação
O que levar para a perícia médica do INSS
Checklist de documentos
Documentos pessoais e previdenciários
- Documento de identidade com foto (RG, CNH ou passaporte)
- CPF
- Carteira de trabalho (física ou digital) ou documentos de vínculo empregatício
- Extrato do CNIS atualizado (disponível no Meu INSS)
- Número do NIT/PIS/PASEP
Documentação médica
- Laudos médicos atualizados, assinados com CRM do médico
- Relatório do médico assistente descrevendo o diagnóstico, o tratamento e as limitações funcionais
- Exames complementares recentes (imagens, laboratoriais, eletrocardiograma etc.)
- Receitas e prescrições médicas em vigor
- Histórico de internações, cirurgias ou procedimentos relevantes
- Relatórios de especialistas (neurologista, ortopedista, psiquiatra etc.), se houver
Informações sobre o trabalho
- Descrição da função que exercia (o que fazia no dia a dia)
- Se o trabalho exigia esforço físico, postura específica, exposição a agentes nocivos
- Data do último dia trabalhado
Como apresentar a documentação
Levar documentos não é suficiente — é preciso que eles comuniquem claramente a incapacidade.
Alguns pontos práticos:
Organize por relevância. Coloque na frente o laudo mais recente e o relatório do médico assistente. O perito tem pouco tempo e precisa localizar as informações rapidamente.
Prefira laudos descritivos. Um laudo que diz apenas "paciente com hérnia de disco lombar" tem muito menos peso do que um que descreve "paciente com hérnia de disco L4-L5 com compressão radicular, dor irradiada para membro inferior direito, limitação severa para permanecer sentado por mais de 15 minutos e impossibilidade de carregar peso acima de 2 kg".
Inclua o impacto no trabalho. Se o médico assistente não mencionou a relação entre a doença e a atividade profissional, vale solicitar um complemento antes da perícia.
Leve originais e cópias. O perito pode querer reter cópias. Guarde sempre os originais.
Situações que merecem atenção especial
Doenças psiquiátricas e psicológicas
Depressão, ansiedade, transtorno bipolar e outras condições de saúde mental costumam ser mais difíceis de documentar. O laudo do psiquiatra ou psicólogo deve descrever com precisão os sintomas, o impacto funcional e o tratamento. Relatórios genéricos têm pouco efeito na perícia.
Doenças crônicas com variação de sintomas
Lúpus, fibromialgia, esclerose múltipla e condições similares podem ter dias melhores e piores. O perito avalia o estado no dia da consulta, mas a documentação deve refletir o quadro habitual — não apenas o momento da avaliação.
Doenças que dispensam carência
Algumas condições listadas em portaria do Ministério da Previdência dispensam o cumprimento de carência para o auxílio-doença. Se a doença do segurado constar nessa lista, isso deve ser mencionado no requerimento e confirmado com o perito.
E se o resultado for negativo?
Se a perícia resultar em indeferimento, o segurado tem 30 dias para interpor recurso ao Conselho de Recursos da Previdência Social (CRPS). O recurso é gratuito e pode ser acompanhado de documentação médica complementar.
Em muitos casos, o indeferimento ocorre por documentação insuficiente — não porque o segurado não tem direito ao benefício. Entenda as opções disponíveis em: Recurso administrativo ou ação judicial contra o INSS: qual caminho avaliar?
Prepare-se com antecedência
A perícia médica do INSS é uma avaliação técnica com tempo limitado. A preparação faz diferença real no resultado.
Use o checklist deste artigo para organizar laudos, exames e informações sobre o trabalho antes do dia da perícia. Em dúvida sobre como apresentar seu caso ou se o resultado não refletiu sua situação real, busque orientação individualizada — conheça o serviço de benefícios por incapacidade para uma análise específica do seu caso.
Bianca Lazzaretti é advogada e Juíza Leiga. Mestra pela Unisinos e especialista em Direito Previdenciário pela Legale. Atende em Três Coroas/RS e on-line para todo o Brasil. OAB/RS nº 114.904.